sexta-feira, 10 abril, 2026
QUANDO O PRAZO DE ANÁLISE VIRA POLÍTICA PÚBLICA

Confira a segunda coluna “Café quente, Diário Oficial frio”, publicada semanalmente pela Dra. Lidia Cristina no LinkedIn

Segunda-feira começa como sempre: café quente, Diário Oficial ainda frio e aquela curiosidade automática para ver o que os números recentemente divulgados pelo Mapa vão provocar no debate da semana.

O MAPA divulgou os dados dos números de registros de defensivos agrícolas de 2025 — e, desta vez, algo chamou atenção antes mesmo dos números: a forma da divulgação. Foi leve, direta, sem justificativas defensivas pelo número de aprovações e trabalho desempenhado.

Os dados falaram por si:

📊 912 registros concedidos (101 genéricos)

🌱 162 bioinsumos, recorde histórico

🧪 19 fórmulas inéditas

🔁 além de suspensões, fiscalizações e retirada de produtos ilegais do mercado.

É um retrato de um sistema que está decidindo e fiscalizando. Analisando os dados, fiquei me perguntando…. Esses números aumentaram por conta das judicializações?

Quem me acompanha aqui ou pelo Diário Oficial, sabe que o meu escritório é pioneiro nessas ações, o que justifica a minha o meu questionamento.

A resposta que me vem à mente é sim, não pelo número em si, mas pela criação de melhorias e politicas que permitem esse aumento. Explico.

⚖️ a judicialização não nasce do excesso de poder do Judiciário, mas de alguma disfunção das instâncias decisórias tradicionais. Em outras palavras: quando o sistema administrativo deixa de decidir no tempo certo — e passa a decidir tarde demais —, o conflito migra para o Judiciário.

⏱️ O paralelo com a saúde: o Judiciário entrou pelo prazo, não pelo mérito

A experiência da ANVISA ajuda muito a entender o momento atual dos defensivos. A judicialização da saúde não começou pedindo remédio, mas pedindo decisão.

O Judiciário foi provocado porque processos se arrastavam por anos, sem previsibilidade, sem encerramento, sem resposta institucional.

🌱 Defensivos agrícolas: controle do tempo

No setor de defensivos, o fenômeno é semelhante. A judicialização, via de regra, não ocorre por mora na avaliação da eficácia. Ela se concentra nas etapas toxicológica e ambiental de produtos formulados a base de produtos técnicos equivalentes e de produtos técnicos equivalentes

Segundo dados da MOVE (apresentamos em uma reunião no final do ano passado), até dezembro de 2025, 50 produtos tiveram a avaliação tóxicologica por determinação judicial.

Muitos processos correm sob segredo de justiça. Não há dados públicos consolidados do IBAMA,  mas fazendo uma continha (não é meu forte, confesso), arrisco afirmar, com segurança, que mais de 30% dos registros concedidos de produtos técnicos equivalentes e produtos formulados equivalentes passaram pelo controle judicial do prazo.

➡️ controle não é intervenção.

O Judiciário controla a legalidade do tempo do processo. Não controla o conteúdo da decisão.

🧩 Judicialização como peça do arranjo institucional — não como vilã

A judicialização de políticas públicas, quando bem delimitada, funciona como mecanismo de estabilização, não de ruptura.

Ela: pressiona por previsibilidade; induz organização administrativa; expõe gargalos que a própria Administração já reconhece.

Isso ajuda a entender por que a judicialização não explica tudo, mas faz parte da melhoria dos números.

A outra parte vem de ganhos reais de eficiência e da administração: priorização administrativa; protocolo único; reorganização de fluxos; aumento de equipe.

O MAPA está se organizando a cada dia mais. A AVISA também. Basta olhar para a ANVISA e os impactos positivos do flora e de novas organizações para otimização de processo. Cito aqui a RDC nº 1005/2025, enfrentando gargalos históricos.

🚫 O juiz-herói não aparece aqui — e isso é bom sinal

O meu professor de mestrado, me disse nessa quinta-feira, “juiz-herói não é um bom juiz”. Os números divulgados pelo MAPA mostram exatamente isso.  Nas ações de mora o juiz não está escolhendo políticas públicas. Não há canetada salvadora. Não há substituição da Administração. Há um Judiciário atuando no relógio.

☕ No fim das contas, os números contam mais de uma história

Eles mostram:

📈 mais decisões administrativas

⏱️ menos processos parados

⚖️ maior controle da duração do procedimento

Até a próxima segunda.

Com café quente, Diário Oficial frio — e o debate sobre o papel de cada instituição.

SOBRE A COLUNA “CAFÉ QUENTE & DIÁRIO OFICIAL”: de autoria da advogada Dra. Lidia Cristina Jorge dos Santos, sócia-fundadora do escritório Figueiredo e Santos, a “Café Quente e Diário Oficial” é publicada semanalmente, às segundas-feiras, no Linkedin (confira na seção Artigos na página profissional da Dra. Lidia: ( clique aqui ) . A Coluna trata de temas ligados à área de defensivos agrícolas, com uma abordagem “sem rótulos” e “sem ideologia”, trazendo informações relevantes sobre direito, regulação, processo administrativo, dados, informações regulatórias e análise jurídica. Reanálises, registros e pós-registros, competências de MAPA, ANVISA e IBAMA, entre outros órgãos, a questão da segurança jurídica são alguns dos assuntos de destaque na Coluna.

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